Como fazer um retrato, ainda que demore cinco dias pra realiza-lo.

Porto Príncipe, Haiti, dia cinco de abril de 2001, 16h13min04seg.


E você me pergunta o por que de iniciar essa publicação, com título 'pega clique no google', com referências tão precisas sobre o tempo.


Elementar! não é sobre o tempo de gestação pra realizar um retrato que me proponho escrever dessa vez? nada melhor que uma citação quase técnica sobre esse quesito - tempo.


Agora uma pausa pra contar história. Adoro contar histórias sobre as fotos que fiz. O apelido dessa menina linda, no grupo de capoeira que ela fazia parte, lá em Porto Príncipe, era Urucum, disse o mestre, por conta do tom de pele da jovem, se assemelhava ao do fruto marrom, avermelhado, único.


Em 2011, fui ao Haiti para realizar um documentário fotográfico sobre a vida dos cidadãos daquele país, no pós terremoto que devastou boa parte daquela região no ano anterior. Num Centro de apoio humanitário aos desabrigados, criado pela Viva Rio, foi onde conheci a Urucum (não me recordo do seu nome verdadeiro). Meus olhos bateram nela e pensei: _tenho que fazer um bom retrato dessa menina de olhos que gritam de expressão. No primeiro dia por ali, apenas a observei durante as atividades esportivas e de dança que praticava com outras dezenas de adolescentes. No segundo, já não tão estranho a todos, já arrisquei um 'Sava?" pra mulecadinha, garantindo sorrisos de uns e ainda desconfiança de outros. Mas nenhum cumprimento sem resposta. Ô povo amável é o haitiano. Sou apaixonado por aquelas pessoas.


Terceiro, quarto dias. Já interagindo bem com a maioria da galerinha, eu e eles já mais familiarizados uns com os outros, já com aquele momento de quebra-gelo ultrapassado. Mostrava as fotos pra um grupo aqui, outro ali. Almoçamos juntos no refeitório num dos dias. Urucum na minha mira pra "O" retrato da viagem. Minha intuição dava berros nos meus ouvidos, dizendo que a foto daquela menina seria "A" imagem daquele trabalho. E foi.


No quinto dia pelo Centro, já findada a aula de capoeira, eu estava do lado de fora do imenso galpão onde os jovens treinavam, num corredor que ligava o tal galpão a uma sequência de salas com janelas e portas imensas, que serviam de bases administrativas pra ONG. A grande maioria dessas salas ficavam abertas o tempo todo e as pessoas iam e vinham de uma pra outra, pra realizar algum trabalho, buscar algum item, coisas normais de rotina de um lugar enorme e cheio de atividades como aquele. Urucum passou por mim, sorrimos um pro outro e ela entrou numa das salas. A chamei, e perguntei, em português, se poderíamos fazer uma foto. A luz dentro do ambiente estava espetacular, vinda da janela grande do lado esquerdo da sala. Era quase fim de tarde, como você pode ler lá no início do texto, quatro e pouquinho da tarde.


Eu não falava francês ou o crioulo; ela não compreendia o português. Nos restou o diálogo de mímica e comunicação visual, prioritariamente. Apontei pra câmera, depois apontei pra ela, circulei o meu rosto com a mão e arrisquei: Photo? Depois de um sorrisão aberto e bonito de viver, a menina apontou pra si e respondeu, amistosamente e surpresa com algo que imagino ter sido um "uma foto de mim?"


Devolvi um "Oui" e, então, a parte mais difícil, dirigir a modelo. Com as mãos, acenei "vem mais pra cá". Graças aos deuses, entendeu. Depois, "apontando pra janela e pro chão "aqui, ó. Fica aqui, olhando ali pra janela". Deu quase certo. Ela caminhou em direção a janela. "No, No!" Apontei pro chão novamente onde queria que ficasse. Retornou e parou. Acho que disse 'Aqui?"", em francês. Se falou ou não, nunca saberemos. mas respondi, "isso!"


Isto feito, foi só deixar os olhares e a câmera conversarem uns com os outros e criar uma direção de ajuste fino pro retrato. Dois dedos apontados pros meus olhos, depois pra ela e, seguidamente, pra janela. Mostrando com o meu rosto e corpo, como queria que ficasse posada. Um, dois, três cliques.


Feito! Eu tinha "A" foto!


Mostrei as imagens no visor LCD da câmera, agradeci e voltamos pro galpão. A imagem horizontal, a esquerda desse tríptico, foi usada como capa da publicação impressa que o Viva Rio elaborou para divulgação do trabalho realizado por eles naquele período no Haiti.


Um dia eu volto lá, pra rever aquelas pessoas incríveis. Um dia eu volto!


Pra sempre o meu muito obrigado ao Haiti, a Urucum e a todxs, pelo carinho que receberam nossa equipe.


Em outro post (ou outros) conto outras histórias daqueles doze dias.


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